segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Minhocas e outros bichos da terra

Perambula a terra escura.
Fura a argila dura.

O bicho parte:
cava,cava,
sulca galerias,
essa é sua arte.

Cavadores, roedores.
Anelídeos, dasipodídeos.
Conterrâneos
....................dos subterrâneos.

Queria um dia seguir seus mapas,
virar um furão
e chegar ao Japão.
Com as marmotas,
buscar terras remotas.
Feito bicho geográfico
percorrer o mundo

na sola do pé.

Abrir caminhos.

É a sua sina,
minhoca querida.

Inutilidades

Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abana a cauda.
Tem asa, porém não voa, a xícara.
De que serve o pé da mesa se não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está em sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.
Ah! se trotassem os cavalos do motor ...
Ah! se fosse de circo o macaco do carro ...
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.

José Paulo Paes

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Brincadeira de meninas

Cada uma em seu personagem:
“A Ashley não vai vir?”
“Não, tá com H1N1”
“Coitada.”
“Então vamos ao cabeleireiro.”

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Viagem de minhoca

Uma minhoca de
Ibitipoca
queria conhecer
a orla carioca.

No caminho,
parou na maloca.
Raspou mandioca,
comeu tapioca,
e muita paçoca.

Debulhou grãos
para pipoca,
e nos cabelos do milho
fez maçaroca.

Encontrou uma velha coroca,
a fiar numa velha roca.

Caiu no meio da pororoca,
flutuou por um rio
que no mar desemboca.

Ah, menina minhoca,
sua alegria me toca.


sexta-feira, 24 de julho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Juninos

Meninos com balões, Portinari, 1936.


Meninos soltando balões, Portinari, 1951.

Na Rua do Sabão

Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!

O que me custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs
[os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.

Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na
[escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de côr.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!

Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou
[das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se enchesse o soprinho tísico do José.

Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.

Cai cai balão!

Um senhor advertiu que os balões são proibidos
[pelas posturas municipais
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe...
Caiu no mar - nas águas puras
[do mar alto.

(Manuel Bandeira)




quarta-feira, 10 de junho de 2009

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

sábado, 23 de maio de 2009

brincando com haicais

Amarelo brilha
Silhuetas de troncos
Entardercer

(Laura e Mima)

Estrelas brilham
Pessoas andam
Fez-se o verão

(Laura e Papis)

Flores em galhos
céu de papel
na fotografia


OU

Flores em galhos
apontam ao céu
na fotografia

(Laura, Papis e Mima)

Baleia
Fofucha sereia

Esgueira-se
(Mima)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

História pelo avesso

E fim. Espera aí. Você não deve ter entendido direito a história, mas vou contar de novo.
Era uma vez uma melancia que andava num carro de corrida. E tinha um público gigante. Eram bichos e um bicho tinha uma pessoa de estimação no campo, e na verdade é de tudo de mentira. O carro é um carrinho de supermercado. O campo era a caixa eletrônica. E fim. E agora, você entendeu a história?

(história inventada e ditada pela Laura, digitada pela Mima)

do Laerte




quarta-feira, 20 de maio de 2009

Tropeço

Andando e comendo pipocas, obstinadamente.
Tropeçou na calçada quebrada.
Engoliu esquisito.
Agora são só soluços.

terça-feira, 19 de maio de 2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Palavreado

ANTICONSTITUCIONALISSIMAMENTE não é palavrão.
Mas é um pa-la-vrão. Coisa de advogado e deputado.

SÓ é palavra curtinha, usada de montão.


PROLIXO é quem fala muito e não fala nada.

LACÔNICO é quem fala sem quase falar.

PAPO-FURADO é o oposto de papo-firme

e o mesmo que conversa-fiada.

Conversa de prolixo é BOCAGEM.

TAGARELA é quem gosta de falar
.

LENGALENGA é CANTILENA ou LADAINHA,

coisa de quem é bom de enrolar.

PALAVROSO não é um palavrão horroroso.



domingo, 17 de maio de 2009

Batalha musical da Pucca

A coitada da lentilha

o primeiro a ouvir não!
foi o feijão
depois, foram para a lista
o pimentão
e o almeirão

bobaginha
quem escutou
foi a abobrinha

para a berinjela
palavra
nada singela

a purpureante beterraba
verbalmente
foi surrada

agora, pobre mesmo
foi a lentilha
desprezada como um cão
enxotado da matilha

A doce

cachorrinha
manchada
peluda
orelhuda

parece
que foi
feita
a pincel:

branco
preto
e mel

Bichos de parede

o golfinho
golfa
no golfo

o cavalo
cavaloa
no cavalete

golfinho clicado
cavalo pintado

sábado, 16 de maio de 2009

Ervilha torta

Um ponto verde

.....................pode ser uma ilha

........................................ou uma ervilha

........................uma vagem vindo

gotinha de clorofila



(Para a Laura, que já foi Dona Ervilha)